Salve, moçada, tudo bem? Por aqui estou me readaptando à vida civil em algum lugar no bairro de Pinheiros, São Paulo. Enquanto o Núcleo está em período de reformulação, sigo com uns projetos paralelos e, principalmente, cuidando das minhas cachorras.
Pra quem acha que o Núcleo acabou, pode achar de novo, em breve traremos novidades para vocês.
Nesta edição #51, vou falar de como a estética das aplicações de inteligência artificial estão criando um marasmo visual.
Pra que site?
Quando fui lançar o Journalism Relay Project, eu utilizei Claude Code não para construir o site pra mim, mas para fazer a integração entre Obsidian e o framework Quartz 5 que eu queria utilizar. A ideia foi permitir qualquer atualização no site pelo meu editor de texto, inclusive "comitar" os novos arquivos direto para o site estático. Fácil, leve, seguro e gratuito.
Se parece complexo pra você, não se preocupe, é um porre mesmo, e por isso eu quis usar IA para fazer toda a parte chata de configuração. O Quartz é uma bela ferramenta, mas é razoavelmente limitado em termos de layout, é assim que eu queria. Estou no período "menos é mais" em termos de interface. Uma coisa que eu não usei o Claude foi para escolhas de design.
Pois bem, as cores que eu havia escolhido tinham uma textura meio pastel, meio bosta de vaca, eu achava uma combinação bonita, diferente. Um dia, quando fiz uma piada sobre a estética dos sites criados pelo Claude, meu amigo Michel Gomes rebateu: "ué, mas você não usou no seu site novo". Fiquei tão incomodado que mudei todas as cores e fontes do meu site.
A verdade é que tem me incomodado ver a mesma estética gerada por IA em tudo que é canto. Títulos gritantes que misturam fonte sans-serif bold e serifada itálica. Cores pastéis. Bordas em cards apenas no lado esquerdo. Bullet points em lugares inusitados. É uma estética que, male-male, emula o próprio site do Claude e da Anthropic.
Eu não ia escrever nada sobre isso, porque WHO GIVES A SHIT? Certamente deve haver pessoas que adoram ou, no mínimo, não se incomodam. Eu chutaria que a maior parte das pessoas está se lixando pra isso.
Mas, então, vi um texto na revista New Yorker exatamente a respeito da repetição de clichês em interfaces criadas por vibe coding, as quais aparentemente ficaram ainda mais batidas com o lançamento da ferramenta Claude Design.
Diz o texto:
Em apresentações de slides e interfaces de sites, há um predomínio de fundos em tons de bege e creme, acentos em tons de laranja enferrujado e fontes serifadas grandes, que são italicizadas e destacadas em tentativas entusiásticas de ênfase. Subtítulos são frequentemente “espalhados”, no jargão de design, com espaços entre as letras, e há uma prevalência inexplicável de barras de texto estilo ticker, como se o site fosse um programa de notícias a cabo.
Uma vez que você enxerga os clichês, é difícil desver. Pra eu não precisar ficar mostrando, pedi pro Claude fazer uma (aparentemente ele gosta dessa estética):

O problema não é visual
Meu problema com esse tipo de design não é necessariamente estético. Se você parar pra ver, é um design até que bonito, limpo. Não é ruim de olhar, não é mal-feito.
O que me incomoda é a plastificação desse visual via IA generativa. Eu não sou hipócrita, eu uso essas ferramentas direto, pra um monte de coisa, vejo várias utilidades. Mas eu também enxergo uma predisposição de muitas pessoas a evitar inteiramente processos de criação, sejam de textos, de ideias, design ou o que quer que seja.
Como a ferramenta de IA que cria os estilos, paramos de nos preocupar com o que gostamos e queremos, delegando essas decisões para modelos de linguagem que recorrem sempre ao conhecimento mediano de seus dados de treinamento.
Às vezes isso é suficiente e satisfatório, mas a repetição visual cria clichês, e os clichês criam um inevitável desprazer, não pelo aspecto visual, mas sim pela repetição desnecessária. Pense no que os filmes Matrix fizeram para cenas de câmera lenta!
Os clichês também me incomodam por algo que não mostram: a ausência de intencionalidade em construir algo original. (Eu tenho pensado muito em intencionalidade nesse momento de transformação de IA.)
Segundo o texto da New Yorker:
A designer e escritora Celine Nguyen identificou uma combinação de 'cores primárias elegantes, ligeiramente distorcidas', tons dessaturados que lembram o design modernista de meados do século. Essas qualidades podem ser inofensivas, até desejáveis por si mesmas, mas sua aparência ubíqua na internet as transformou em clichês de design instantâneos. 'Agora me sinto instintivamente repelida pelos tons quentes, mesmo adorando esse tipo de paleta de cores', disse Nguyen."
Algumas pessoas, especialmente profissionais, sentem repulsa dessa plastificação. Se tudo é igual, então nada mais é especial. E, se tudo é igual, tendemos a valorizar o que é diferente, mesmo que não seja tão bonito. Talvez aqui caiba espaço para uma simplificação absoluta dos visuais de boa parte da internet.
Veja o blog Daring Fireball ou até mesmo o meu (uso Pagecord, que não permite muitas customizações). Eu valorizo o simples agora mais do que nunca, não porque é melhor visualmente, mas porque quem fez quis que fosse assim. A escolha não foi delegada ao conhecimento comum do modelo de linguagem.
Frequentemente me vejo no meio do fogo cruzado entre os que gostam e os que não gostam de inteligência artificial em geral. Entendo ambos os lados. Sou o Centrão nesse debate. No caso do design, no entanto, me vejo cada vez mais no time dos que não gostam, e esse time está claramente perdendo.
Ferramentaria
- Tagarelo – Ferramenta de análise de narrativas em redes sociais criadas por um amigo meu. Sim, eu sei que a estética é puro Claude, mas meu amigo fez a parada sozinho e ele não é desenvolvedor, o cara é fera de metodologia e processos. Vou testar essa semana, mas parece massa.
- Kraken – Para quem quer desenvolver coisas legais e pequenas e precisa de um framework de CSS para amarrar tudo, o Kraken é desses recursos, fornecendo o básico que você precisa para começar a criar um site com o seu design. É grátis, levíssimo e open-source.